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Um corpo habitado por cistos

Chegou aquela época do ano em q a gente - mulher - se submete a uma manhã interminável de exames laboratoriais de rotina. Tudo rotina.


Por Carolina Delboni

23.08.23


https://shet-alks.com/blog/um-corpo-habitado-por-cistos-por-carol-delboni




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Além das 23 ampolas de sangue


Depois de quatro horas e dezessete minutos trocando de poltrona, entrando e saindo de salinha, inspira-segura-solta, vira um pouquinho aqui pra direita, agora de barriga pra cima, enche a bexiga, esvazia, pode secar o gel, tem mais papel aqui, troca o avental, a senhora está liberada, pode tomar um café, eu termino meus exames de rotina e descubro um corpo habitado por cistos.


Cisto = “Um cisto é uma espécie de cápsula encontrada em órgãos ou tecidos do corpo humano que geralmente é benigna, não causa sintomas e costuma ser achada sem querer”. “Sem querer”, quantas coisas no teu corpo você acha “sem querer”?


Gostaria de não ter achado a flacidez que me habita “sem querer”. Ou os quilos extras que ganhei nos últimos anos. Queria não ver minha aparência cansada no espelho e nem saber da minha memória que agora falha como um motor de carro velho. A gente troca as peças, dá uma melhorada aqui, outra ali, mas a carcaça segue a mesma. Tudo “sem querer” a gente vê.

Eu pergunto para a médica que está realizando os exames por que temos tantos cistos a partir de uma certa idade. Quarenta e oito, no meu caso. “Normalmente são alterações hormonais muito comum em nós, mulheres”. “Muito comum em nós, mulheres”, uma frase tão cheia de empatia que eu me satisfaço com a resposta e não avanço nas minhas perguntas.


Pra quê perguntar mais e saber mais dessa “tal” comunidade de semelhanças que nós mulheres carregamos? Decido não saber. Às vezes fico de saco cheio dessa coisa “ah os hormônios femininos”.


Mas logo vejo uma ramificação na minha barriga, mais precisamente no meu fígado, e eu digo que parecem galhos de árvores dentro de mim. A médica ri e a auxiliar também. “Uma outra paciente disse que a dela pareciam peixinhos”. Girinos, talvez.


Era meu sistema venoso. Em preto e branco eu achei que eram galhos de árvore e que tinha algo brotando dentro de mim. Tinha ou tem. Tenho certeza que mulheres brotam diversas vezes ao longo da vida. Oras em preto e branco, oras em vermelho e azul pulsante.


A médica termina o ultrassom de abdômen total e eu saio com um saldo: SIU liberador de LNG normoposicionado, Útero com dimensões normais, Bexiga com boa distensibilidade, fígado-pâncreas-baço-rins tudo com dimensões normais e segue o baile, como dizia minha vó.


Ah, o coração vai bem, obrigada. Átrios com dimensões normais, formas perfeitas, tecidos preservados, tronco pulmonar com fluxo normal e totalmente em sintonia com os batimentos esperados para um adulto. Por alguns minutos, pude até escutar minha sinfonia interna. Fazia tempo que eu não virava os ouvidos para dentro.


Dias depois, no relatório dos exames que eu puxo pela internet, leio no rodapé da página: “Conclusão: normal. Na ausência de achados clínicos considerar controle de rotina de acordo com a faixa etária”.


“Faixa etária”. Me imaginei enrolada em uma daquelas faixas que espremem os seios com um escrito em bold: 45+ . Como quem ganha um rótulo – ou mais um. Veja, e a gente passa uma vida tentando se livrar deles. Só que dos cistos não vou me livrar. Pelo menos não até o próximo exame de rotina.

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