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Pela maior parte da história, anônimo foi uma mulher


Por Carolina Delboni

05.07.23


https://shet-alks.com/blog/pela-maior-parte-da-historia-anonimo-foi-uma-mulher-por-carol-delboni




O título deste texto é da escritora inglesa Virginia Woolf. A frase está no livro Um Teto Todo Seu, lançado em 1929, em que ela escreve sobre uma mulher acadêmica que vai fazer uma palestra numa universidade, mas que é impedida de entrar na biblioteca porque está sozinha. Ela precisava estar acompanhada de um homem.


É a partir desse trecho que Virginia Woolf pega para si a discussão sobre a mulher na literatura, o espaço que elas tinham versus o espaço que deveriam ocupar e aqui eu faço o mesmo, pego o texto para mim e começo a puxar nossa conversa.


Minha mãe faleceu há quase um ano e entre desmontar a casa, separar o que fica e o que vai, muita coisa foi permanecendo de lado à espera de coragem. Nem todo objeto ou roupa você quer dar ou doar, mas não dá para levar tudo para casa na tentativa de eternizar uma existência.


Nesse processo, roupas, bijuterias e lingeries foram colocadas em algumas sacolas. Sacolas essas que não seriam doadas a Ong’s ou Instituições de crianças ou idosos. A gente queria doar para algum lugar que acolhesse mulheres vítimas de violência.


Queria que, de alguma forma, o vestido e o brinco que foram da minha mãe, uma mulher, pudessem fazer parte do complexo processo de recuperação da autoestima de mulheres que tiveram a sua estilhaçada.


Um par de brincos dourados pode ser insignificante se a gente olhar para ele como uma bijuteria qualquer. Mas eu queria ressignificar e ressignificar para mulheres que precisam da força de outras mulheres para conseguir se reerguerem. Lembra da frase clichê “uma mulher puxa a outra”?


O desejo era esse e eu fui atrás de um lugar “punk”. A busca foi tão intensa que cheguei a um abrigo sigiloso. Isso, sigiloso. Um abrigo que não pode se revelar, não pode ter nome e endereço para garantir a segurança e a vida das mulheres que lá chegam.


“Muitas chegam só com a roupa do corpo”, me contou a coordenadora em nossas muitas trocas pelo whats. E eu lembrei da personagem Maddy na série Maid que conta a história real de uma mulher jovem que sofre abuso psicológico do marido e que, inúmeras vezes, precisa se proteger num abrigo sigiloso.


Quantas vezes aquela mulher não chegou lá com a roupa do corpo? Quem é que não lembra das cenas em que ela ia até a esquina mais próxima do abrigo para fazer ligações? Para garantir o sigilo do endereço em que estava caso fosse rastreada pelo agressor. Uma das inúmeras maneiras de se salvar.


E eu fiquei pensando em quantas mulheres precisam se tornar anônimas para se salvarem. Ou quantas mulheres precisam deixar de existir para continuarem vivas. Existe uma parte da nossa História que é a tentativa constante de nos aniquilar e as violências para isso são incontáveis. Um abrigo sigiloso, que não pode revelar nome e endereço é uma delas.

Um abrigo sigiloso que carrega o nome de uma mulher que foi guerrilheira brasileira, militante do Partido Comunista do Brasil e integrante da Guerrilha do Araguaia. Foi um dos casos investigados pela Comissão da Verdade, que apura mortes e desaparecimentos na ditadura militar brasileira. Veja que simbólico.


Eu, obviamente, não vou revelar o nome do abrigo, mas revelo parte da pesquisa que fiz quando soube que o lugar levava o nome de uma mulher. E daí eu volto ao título deste texto e a frase de Virginia Woolf: “pela maior parte da história, anônimo foi uma mulher”.


Agora corta e vem para outra cena. Numa conversa deliciosa com a escritora baiana Luciany Aparecida, para o podcast As Amigas Geniais, ela contou para a gente por que resolveu assumir a assinatura estética criada na adolescência, Ruth Ducaso, como assinatura única de suas obras.


O que poderia ser uma tentativa de anonimato era – é – na verdade, uma homenagem a sua vó Ruth e à outras tantas mulheres que traz representada nos “casos” que conta. Luciany faz um trabalho espetacular de literatura contemporânea onde ela usa o recurso da escrita para resgatar histórias de mulheres “anônimas”.


Suas personagens costumam ganhar nomes e características de mulheres que foram, de muitas formas, apagadas da História – sim, essa com letra maiúscula. Sua escrita é política, não tenho a menor dúvida. É feminista também.


Uma escrita “contaminada pela condição da mulher negra”, tomando emprestado a frase de Conceição Evaristo e que eu peço licença para estendê-la “a condição de mulher”.


Tá, mas pera aí, o que você tá querendo dizer com tudo isso? Que a gente só entende o presente se entender o passado. Que a gente só é capaz de transformar se nos preenchermos de outras mulheres. Que quando tentam apagar uma mulher é preciso que existam outras capazes de puxá-la do poço mais fundo e garantir a permanência – e existência - do seu nome.


Porque nome é o elemento que nos dá a chance primária de individualização social. É pelo nome, primeiro, que nos tornamos únicas. Não à toa é a primeira coisa que a gente aprende quando somos pequenos na escola.


Eu vivo dizendo que é preciso ser feminista. Vivo dizendo que este é um ato vital para garantir a própria existência entre tantas violências. Porque foi-se o tempo em que existir era sinônimo de anonimato. “As rosas da resistência nascem do asfalto”. Presente!

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