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Quando

02 jun 2021

Tratado de pandemia por Carolina Delboni

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Fica decretado que toda e qualquer pessoa que estiver em todo e qualquer tipo de relacionamento amoroso tem o direito de odiar e amar com a mesma intensidade e frequência, ao longo deste período chamado “quarentena”.

Não será considerado crime, violação, delito, tropeço, crueldade ou atrocidade a vontade de chorar, gritar, brigar, abominar ou ter antipatia momentânea pela pessoa amada. Todo e qualquer sentimento não previsto na comunhão “serão felizes para sempre” está permitido neste momento de intensa convivência e permanência entre ambiente fechado e restrito – já chegam as restrições externas para termos mais as internas.

O direito ao saco cheio é mais do que legítimo. Lembrando sempre que respeito físico e moral são tratados permanentes e inquebráveis. Sem ofensas, por favor. Mas vamos ser honestos. Os relacionamentos não se constroem, apenas, na base do sorriso e das fotos bonitas que a gente posta no Instagram. Escolher estar ao lado de alguém é uma tarefa que exige gentileza e cuidado – diários.

E isso não significa amar pouco ou amar pequeno. Isso é entender sobre os meandros do amor. Porque só amar não basta. É preciso escolher amar.

A vida de quem divide os reflexos no espelho do banheiro não tem pôr do sol bonito todo dia. Dividir intimidade é um dos trilhos mais complexos. Tem muito ajuste e re.acertos que a gente precisa escolher fazer pra dar conta do que carregam as entrelinhas da relação.

Pede da gente a gentileza em buscar na imagem do outro, figuras não tão claras, não tão aparentes. Do contrário, vamos permanecer na busca da pessoa idealizada ou da imagem projetada – quase sempre inalcançada. A gente projeta, não é? Já leu Copo Vazio, da Natalia Timerman? Recomendo.

Aparentemente, o livro fala de uma protagonista, Mirela, que viveu um daqueles amores vulcânicos e na mesma intensidade viveu os planos e sonhos incutidos no pacote relacionamento. Mas faz parar pra pensar o quanto da gente é projetado no outro. O quanto dos nossos sonhos e planos são depositados na capacidade do outro fazer acontecer. O que será que a gente tanto busca no outro que vive na gente?

Ainda que você não tenha um amor pra chamar de gosthing, você tem aí essa “pessoa que mora ao lado” e em tempos não muito favoráveis, é melhor passar um álcool no espelho e dar um jeito de rever as imagens projetadas – suas e do outro.

Tá aí um bom momento para, também, rever os contratos – com trato – uma vez que está mais do que permitido reconsiderar qualquer tipo de acordo neste momento que se alastra e se alonga na vida dos casais, sejam eles quais forem.

Con.trato– a gente precisa aplicá-los com mais trato. Com mais gentileza. A palavra que tem nela um trocadilho entre dureza e cuidado gera entroncamento, gera rupturas. São as quebras de contratos.

Mas a gente esquece que contratos precisam ser refeitos a todo momento. Contratos ficam velhos, caducam ao longo do tempo. E con.tratos garantem a saúde das relações. Não aqueles que se assinam em cartórios. Aqueles são os contratos sociais. Estes, aliás, são os responsáveis pela permanência de muitos casamentos. Quando socialmente não se permite a ruptura de pactos, vive-se às custas deles em troca de algo.

Nem todo amor é incondicional. Alguns são condicionais a muitas coisas, a muitos combinados. E o “até que a morte os separe” já caiu por Terra. Sociedade e Igreja não seguram mais casamentos. Precisa escolher estar junto. Precisa de cumplicidade, de companheirismo. Da tal parceria. A gente precisa rediscutir as relações antes que elas cheguem a ruir.

Só assim seremos capazes de desatar e reatar os nós – nós, primeira pessoa do plural.