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Quando

22 fev 2022

Espelho, espelho meu, existe algum assunto mais perturbador que o próprio corpo?

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Não que eu saiba. Aos 15, 20, 30, 40, 50, entra ano, sai ano e o assunto persiste. As redes sociais estão cheias de postagens sobre o tema e questões como aceitação do próprio corpo e sentir-se gorda são os “top 10” – se é que ainda existe esta expressão.

Fato é que temos uma questão milenar com a aceitação do corpo e, mais, a beleza que existe nele. Nunca estamos satisfeitas, independente das exigências dos padrões sociais. Existe um eterno questionamento que acontece a quatro paredes na frente do espelho.  Por que é tão difícil lidar com a imagem que reflete? O que a gente tanto procura que nunca encontra? De onde vem essa insatisfação eterna?

Vale tudo para ser magra? Vale tudo para ter a pele lisinha e o eterno aspecto jovem? Perguntas para alguns anos de terapia, não vou arriscar a responder. Mas vou arriscar algumas reflexões.

Um estudo recente, feito pelas pesquisadoras Sarah McComb e Jennifer Mills dentro da Universidade de York, em Toronto, no Canadá, comprovou que a imagem corporal é a representação mental que cada indivíduo faz de seu próprio corpo. Traduzindo, a gente vê aquilo que a gente imagina ser e não aquilo que é de verdade.  É o “tal” corpo real, mas com todos defeitos que nosso querido cérebro nos sugere existir.

O trabalho comparou o impacto que três tipos de silhuetas causam na autoimagem de mulheres jovens: o “corpo violão” ou ampulheta (bumbum e coxas grandes, cintura pequena e barriga lisa); o corpo magro (barriga lisa e cintura fininha); e o corpo “fit” (mais tonificado e com músculos).

“Os resultados revelaram que a comparação com a imagem corporal ideal gera maior insatisfação com o peso e aparência e menor satisfação geral com o corpo, em relação à condição de controle. Aqueles expostos a imagens de “corpo violão” experimentaram mais insatisfação com o peso e aparência e menos satisfação com o corpo do que aquelas na condição ideal de magreza”, escreveram as pesquisadoras no estudo.

E aí, como lidar? O que fazer para ter o corpo ideal? Existe corpo ideal? Eu nunca quis ter cabelo liso, mas queria ser ruiva. Um metro e setenta é uma altura boa. Tenho 1,62. Sempre gostei das minhas pernas grossas e fortes, mas dois, três centímetros a menos no quadril seria perfeito.

Odiava quando minha vó me laçava com aquela fita métrica. “Mas que bundão, hein”, era a frase clássica dela. Odeio bundão, nunca usei fio dental. Gosto do conforto da calçola, ainda que a palavra imprima imagens grotescas no cérebro.

Quando me casei, lembro do Walter Rodrigues me perguntar qual parte do corpo mais gostava. Era o peito, ainda é. Tô falando do peito mesmo e não dos seios, esses já caíram e não precisou nem o terceiro filho nascer.

Todo ano, começo dizendo que farei plástica para levantá-los, mas tenho dúvida se os prefiro firmes e arredondados ou murchos e caídos. Tem um certo charme essa coisa meio Kate Moss. As costas largas me fazem lembrar que nadar faz parte de quem sou. Agora os braços me incomodam, são enormes, luto para não serem flácidos.

A barriga sempre foi seca, ainda me olho de lado e o ângulo de 90 graus permanece. A musculatura não, claro, mas isso é detalhe. Detalhe. Quanto do nosso corpo não vira “detalhe” depois da maternidade, depois dos 40 e depois ainda da menopausa? Um dos sinais da perimenopausa é o acúmulo de gordura no abdômen. Nosso corpo tem tantos sinais, não é?

Sinais, marcas, detalhes, rugas, linhas, músculo, flacidez. Coisas que a gente insiste em apagar – ou retocar – com recursos de aplicativos e filtros.  Dezembro de 2020, a Dove lançou uma campanha pela autoestima depois de pesquisar a fundo o uso de filtros por meninas e mulheres brasileiras nas redes sociais. Os números são todos impactantes:

  • 84% das meninas com 13 anos já aplicaram filtro ou usaram um aplicativo para mudar sua imagem em suas fotos
  • 78% delas tentam mudar ou ocultar pelo menos uma parte ou característica de seu corpo que não gostam antes de postar uma foto de si mesmas das redes sociais
  • Como os filtros projetam padrões inatingíveis, 35% das jovens brasileiras dizem se sentirem “menos bonitas” ao verem fotos de influenciadores/ celebridades
  • 60% das meninas que passam de 10 a 30 minutos editando as imagens dizem ter baixa autoestima
  • 69% das mulheres adultas gostariam de ter sabido como construir autoestima quando eram mais jovens
  • 75% delas gostariam que o mundo se concentrasse mais em quem elas são, em vez de em sua aparência

Entra geração, sai geração e lidar com as questões do corpo continuam sendo um assunto para lá de perturbador. Na busca incessante por uma imagem que nunca corresponde ao desejo, a gente se frustra, se incomoda, sente vergonha. Mas o que é “problema”, o que são mudanças naturais do próprio corpo?

Corpo é um lugar que a gente habita, que a gente faz morada. Feito casa. Um lugar de ena.morar a própria pele. É preciso estar aberta para as novas moradas ao longo do tempo, porque são muitos corpos.

E que a gente tenha mais gentileza para se olhar, se gostar e se elogiar.