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Carolina Delboni | Somos todos mestiços
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Somos todos mestiços

Somos todos mestiços

Branco, preto, caboclo, índio, amarelo…a lista de tonalidades de pele do brasileiro é extensa. Somos mistura de um monte de gente e povos, mas somos todos “um” também. O que faz de nós mestiços num pais onde 50% é negro e outro 50% é todo miscigenado. Ainda assim existe racismo e a gente não sabe lidar com ele.
Na cidade americana de Ferguson, nos Estados Unidos, onde mais de 60% da população é negra, existe um índice de 93% de prisão de negros. Isso com uma frota de policiais brancos na rua onde apenas 3 são negros. Nessa mesma cidade, poucos meses atrás vimos a justiça absolver um policial branco que matou um negro a tiros. Difícil acreditar que existe igualdade num cenário como esse. Difícil acreditar que existe igualdade em zilhões de outros cenários como esse. Repeti a frase propositalmente porque parece que não temos noção do tamanho do preconceito em que vivemos e que sim, fazemos parte dele de forma ativa.

 

Uma matéria extensa sobre o tema saiu na revista Pais&Filhos em dezembro de 2014, quando eu ainda era redatora chefe, inclusive com o mesmo título em que eu usei nessa coluna. Também propositalmente. Para reforçar o que acreditamos e chamar atenção para um assunto que é tão nosso quanto a falta d’água na cidade. Porque sim, somos um país, ainda em sua maioria, racista. Que tem preconceito contra a diferença de cor, que pouco se mistura com o diferente, que pouco o tem no seu dia a dia. Uma diferença que ainda não sabemos lidar e muitas vezes não temos nem propriedade para falar sobre ela. Discutir a cota racial está longe da nossa vã sabedoria. Nossa digo, dos brancos. Que não sabem, e não vivem, o que isso realmente significa na realidade de um negro. A gente tem opinião. Busca conhecimento, mas não temos capacidade de avaliar com a alma. Ou de alma.

Levanto aqui a bandeira para que todos, em algum momento e de alguma forma, olhem para as pessoas que estão a nossa volta (sociedade eu digo) e pense que todos fazem parte de um mesmo. Somos todos mestiços. Somos todos brasileiros. Já dizia Gilberto Freyre, em que “todo brasileiro, mesmo alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta do indígena e do negro”. A pluralidade étnica, cultural e social, que une características e traços de povos tão diferentes, é o que faz a identidade do povo brasileiro. Somos únicos porque somos um pouco de tudo. Isso deveria ser algo para batermos no peito com orgulho, porém fazemos o contrário, batemos uns nos outros. Com racismo, injúria racial e, mais ainda, quando negamos a existência desses problemas.

E se a gente quer deixar algum legado, algum ensinamento aos nossos filhos, certamente a forma de lidar com o outro, com as diferenças, deveria ser um deles. Afinal, em algum momento a criança vai se dar conta de que o outro tem a cor diferente da dela, vai questionar, vai apontar. E a forma com que ela vai se relacionar com essa diferença depende, exclusivamente, dos pais na infância. O exemplo dos pais vai fazer da relação entre raças algo positivo ou negativo. É ai que vai se estabelecer a primeira sementinha. Nos perguntarmo-nos o quanto temos a mistura de raça por perto, quais papéis eles ocupam, como deixamos eles se relacionarem com nossos filhos, como podemos proporcionar encontros igualitários e mais uma infinidade de outros “poréns” é o começo de um pensamento positivo, também. Assumir o assunto racial como parte do seu dia a dia é tão importante quando defender a causa. Olhar o negro, o índio, o asiático ou o branco e conviver com ele sem julgamentos, sem racismo, deveria ser premissa básica. Porque é inadmissível pensar que num país onde, pelo menos, 50% da população é negra a gente ainda tem dificuldades de lidar com o assunto. Já ultrapassamos a África e somos mais de 100 milhões de pessoas negras, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por que só (digo “só” propositalmente aqui) uma cor de pele pode causar tanto alvoroço nas pessoas? Tantas diferenças e distâncias. Volto a repetir: deveríamos bater no peito com orgulho. Racismo é inadmissível, em qualquer instância.

Para ler o original: http://www.brasilpost.com.br/carolina-delboni/somos-todos-mesticos_b_6219868.html

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