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Carolina Delboni | Remando contra a maré
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Remando contra a maré

Remando contra a maré

Movimentos que surgem na contra mão daquilo que a maioria faz, ou está fazendo, definitivamente são para prestarmos atenção. Algo eles têm a nos dizer e a nos ensinar. É o caso do Slow Parenting que diz “vá com calma”. Menos é mais nesse caso, definitivamente. O movimento prega a desaceleração da vida como um todo. Desaceleração no sentido de fazer menos e não mais devagar – que fique claro.

O Slow Parenting apesar de parecer a ponta extrema do Iceberg tem muito a ensinar e a propor. O movimento matriz, que é o Slow, prega a desaceleração no trabalho, na escola, na alimentação, no esporte, na vida social…e por ai vai. Quem deu vida a essa contramão foi o jornalista britânico Carl Honoré, pai de duas crianças, e autor do livro Sob Pressão, editora Record. Em seu site, ele conta como tudo começou quando o filho de 7 anos recebeu um elogio da professora porque desenhava muito bem e ele logo vislumbrou, como pai, a possibilidade do filho ser um grande pintor. Matriculou o menino em aulas extras de pintura quando a criança disse a ele que queria simplesmente pintar. Foi com esse clique que Carl começou a se dar conta da superlotação das agendas das crianças e das expectativas que colocamos nelas. Nasceu ai o movimento “Pais sem pressa” – fazer as coisas no tempo certo sem querer antecipar nada. Isso é possível simplesmente respeitando o básico, ou seja, a natureza da criança e seu tempo. Etimologicamente, a palavra criança nada mais é do que criação em abundância. Precisa dizer mais? Deixa brincar, deixa imaginar, deixa sonhar. Livre. Para aprender a fazer escolhas e ter a possibilidade de aprender nas descobertas. Senão caminharemos cada vez mais para o mundo pronto das imagens. Onde o mundo já foi construído. Basta agora apertar um botão. Assim como na vida, crianças precisam percorrer o caminho passo a passo. Sem queimar etapas do jogo.

Do lado oposto ao movimento (essa é a maioria que eu falo no começo do texto), encontram-se crianças que vivem um dia a dia atribulado, seja na escola e seus períodos estendidos, as infinitas atividades extras, os compromissos como dentista, fono e fisio, o Kumon porque parece que nem as escolas particulares dão mais conta, as casas dos amigos (a vida social é intensa), a televisão, o ipad e (pasmem) aula de etiqueta. O cronograma delas, muitas vezes, é mais apertado do que a agenda de muito adulto. E a gente, como pai e sociedade, deve-se perguntar o porquê. Ou pra quê? Quem são essas crianças que estamos formando pro futuro? Os esforços certamente miram para esse futuro que tanto esperamos e suspiramos. Mas qualidade não é quantidade. Atolar, literalmente, a criança de atividades não significa que ela irá aprender e muito menos que será um adulto bem sucedido na vida. “O futuro da criança é hoje. Bons vínculos afetivos, bom contato com os pais e tempo para brincar são fundamentais”, afirma o pediatra Dr Leonardo. “Nada justifica os esforços exagerados e perigosos feitos com uma criança para gerar um adulto exímio. Respeitar o tempo e as características individuais das crianças parece algo fundamental”, pontua. Só que nada é por mal. Muito pelo contrario. Pais lutam pelo melhor a seus filhos e por isso estão sempre buscando informação e lendo livros e matérias (olha nosso papel aqui) para aprender mais e poder sempre fazer o melhor. Então a intenção de colocar seu filho para fazer vinte e uma atividades, além de estudar na melhor escola, é pelo bem dele. Mas melhor ainda será quando pudermos tirar a mão do acelerador e avaliar até que ponto isso é bom ou ruim, construtivo ou não. Listas infinitas de deveres aonde não mais a experiência de vida, ou de viver, e a relação com o mundo é mais importante, esse movimento (o Slow Parenting), ganha forca no sentido de resistência. Almejamos pelo último modelo de celular e pelo sinal mais rápido da internet ao mesmo tempo que deixamos a distância entre as relações aumentarem. Almejamos por bebês que nascem já acelerados para aprenderem logo a andar, a falar e sair por ai a conquista do mundo. Mais uma vez fica a questão: o que queremos? Qualidade ou quantidade? O futuro pede uma mudança de comportamento que não precisa ser radical, mas precisa ter menos pressão. Porque menos sempre foi mais. E porque tenho esperança em esperar.

 

Ps. Esse texto também foi publicado aqui no link do BrasilPost, na minha coluna

 

 

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